Com o título: Água Grande: os mapas alterados, a 5ª edição da Bienal VentoSul reúne obras de artistas de
diferentes partes do planeta: norte e sul, centro e periferia, pólos frios e quentes, Primeiro
e Terceiro Mundo.
Os lugares de procedência geográfica dos artistas são considerados lugares de diferentes
enunciações e sinais
de diversidade, mas não como índices de lugares geográficos fixos.
A idéia do mapa composto pelos países
participantes da Bienal ajuda a pensar em deslocamentos, mobilizações
e deslizamentos de lugares e posições.
Não há locais fixos para a arte: confrontado com outros, aberto, cada
espaço remete a diferentes locais,
a zonas intermediárias, a terceiros lugares. Estes pontos provisórios e
cruzados desorientam as direções
cartográficas,
mas também servem para enriquecer os pontos de vista
e fundar perspectivas novas das
quais poderão
ser repensados os pontos de partida.
São na verdade propostas
de desorganizar o diagrama do
mapa-múndi:
a arte põe em questão os limites estáveis e as posições fixas.
A arte altera os mapas, inventa
lugares,
levanta limites, transfere os locais e os nomeia de outra maneira.
Água grande
“Y guasú” ou “A água grande” dos guaranis se refere a uma região marcada pelo rio e por suas grandes quedas.
Iguaçu,
o rio que nasce em Curitiba, tem sua grande queda na cruz de três fronteiras, esta é uma das analogias
propostas por esta Mostra que começa em Curitiba e flui para outros espaços.
Também invocamos a figura da água como metáfora de uma zona de união e diferença, de espaço de fluxo ou
estancamento,
de caminho sempre aberto entre as margens.
Um dos fios condutores dessa edição da mostra será a água, que hoje carrega
o status de beleza, mas no futuro
será moeda
de troca por causa da possível escassez provocada pelo consumo não-consciente e pelo rápido
aquecimento global. Hoje,
a água é o centro dos debates geopolíticos contemporâneos. Assim, ela pode servir
de
signo da preocupação com o destino
do planeta, traçado de maneira poética e aberto a questões de
diversos sentidos.
A Bienal se espraia pela cidade, e seus inúmeros lagos conduzirão o discurso visual.
Metaforicamente estarão representando
a Água Grande, nomeada pela sabedoria da mitologia guarani como
Iguaçu. Ali será o ponto de partida para alguns artistas
que têm a ecologia como o DNA de seus trabalhos.
Os lagos e suas composições de diferentes formas estão integrados nesta bienal, não como mera moldura
da paisagem de
contemplação, mas se entrelaçando às muitas obras que flutuarão sobre eles.
Uma reverência da cultura à ecologia.
Mapas Alterados
O espaço global está, em certo sentido, submetido à lógica dos mapas: abre-se em sucessivos movimentos espaciais,
e se estampa de diagramas móveis de migrações e deslocamentos contínuos. Esta Bienal quer organizar estes fluxos
de maneira poética: trabalhá-los como objetos do olhar.
O movimento dos mapas privilegia as posições transitórias: as idas e vindas, a oscilação daquilo que está presente
e se ausenta, a travessia de territórios. No debate acerca dos mapas, há rios, lagos e lagoas. Vazios que multiplicam
as margens refletem a imagem, desorientam a localização de quem não tem terra à vista. A figura do rio permite
imaginar o momento ambíguo da partida e da chegada: a instância do trânsito.
Estas figuras de desorientação, de alteração do espaço, buscam levantar questões a respeito do desconserto que
é produzido por uma geografia globalizada, que mistura os pontos cardeais, apaga os marcos tradicionais e altera
o fluxo e o curso dos rios.
A proposta curatorial de VentoSul pretende se confrontar com a das outras bienais para dialogar com elas e contribuir
com o debate sobre pontos cruciais da arte contemporânea: o sentido da imagem no contexto em que foi massificada
pelo mercado, sua possibilidade crítica onde a transgressão virou espetáculo, a custódia da poesia em um mundo
desencantado, a obrigação ética e política de nomear o conflito e a injustiça sem perder os argumentos da forma.
No contexto dessa cena complexa, VentoSul define suas próprias estratégias e objetivos: é uma bienal aberta
a lugares
e regiões distintas, a modalidades complexas de difusão e exposição, a propostas particulares de discussão
conceitual.
As figuras do mapa e da água permitem que se pense em um meio vivo e fluido capaz de desordenar
e reordenar
os espaços para ampliar o espaço da imagem crítica e a discussão sobre a sorte difícil da arte nos tempos
globalizados. A idéia parte da oposição trabalhada por Deleuze e Guattari entre mapa e decalque. Ao contrário
da monótona
exatidão do decalque, o mapa é capaz de mover as geografias e permitir-lhes movimentos, entradas
e saídas: novos
diagramas movidos pela memória ou pelo desejo. Os mapas da arte podem descentralizar
as cartografias, acelerar
ou retardar o curso dos rios, iluminar os lagos e fazer das fronteiras linhas instáveis de
cruzamento que podem
ser transpostas nos dois sentidos em jogadas imprevistas que apostam no outro lado.
Por outro lado, as fronteiras vacilantes do mapa denotam hoje uma alternativa de posicionamento para a arte
contemporânea: forçam-na a discutir seus próprios limites e tentar transgredi-los.
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