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Rua Carlos Cavalcanti, 1174 - Centro
De 8 a 11 de outubro na Cinemateca de
Curitiba
O termo vídeo-arte tornou-se, nas duas últimas décadas,
muito abrangente e pouco rigoroso. Proposto inicialmente para denominar obras
criadas a partir desse meio tecnológico por artistas plásticos vem sendo
abusivamente estendido à invenção e a criação de outras áreas que também
utilizam esse dispositivo tecnológico.
As origens da vídeo-arte remontam
à década de sessenta, quando a produção artística rompeu definitivamente com as
amarras exclusivas de suportes e materiais convencionais da arte,
desestetizando-se numa tentativa de reaproximação da vida.
Foi utilizado
pela primeira vez por membros do Grupo Fluxus – Nam June Paik e Wolf Vostell –
não somente para registrar performances e intervenções, como também em função de
novas possibilidades de invenção poética permitidas por essa tecnologia.
No Brasil começa em 1974, com as experiências pioneiras de Anna Bella
Geiger, Ivens Machado, Sonia Andrade e, no ano seguinte, com Letícia Parente,
entre outros. Desde então, o recurso a esse meio pela produção contemporânea,
tanto no Brasil quanto no exterior, tornou-se habitual e expandiu-se para além
de seu campo eletrônico estrito. Transbordou para o espaço limítrofe em
vídeo-instalações, obras in situ e demais formas de fixação do espaço no tempo.
A Mostra VentoSul: vídeos de artista, apresenta um breve resumo da
produção em vídeo do Brasil, da Bolívia, Espanha, Uruguai, Alemanha, Austrália e
Japão. Ainda que a seleção dos vídeos que a integram tenha sido feita por uma
curadoria paralela à da Bienal VentoSul, a integração das duas é evidente.
A seleção dos trabalhos, feita junto com Tom Lisboa, partiu de um
universo de inscrições reguladas por edital que especificava um campo de
questões que deveriam ser o eixo dos vídeos apresentados. Esse eixo, Água
Grande: os Mapas Alterados, suscitado pela premência de respostas aos problemas
ambientais que hoje se multiplicam em escala planetária é deliberadamente o
mesmo daquele definido para a Bienal, pela curadoria Geral de Leonor Amarante e
Ticio Escobar.
Daí a extensão do escopo curatorial da Bienal, para esta
mostra de vídeos que a ela se integra, não só no âmbito de sua contigüidade
temática, como também por ela ter acrescentado à mostra final vídeos de alguns
artistas escolhidos por Amarante e Escobar, com destaque para produção de
Yukihiro Taguchi, artista residente convidado pelo Instituto Paranaense de Arte
e um dos destaques da VentoSul.
A seleção dos trabalhos procurou em
primeiro lugar verificar, além da qualidade, sua pertinência poética em relação
ao conceito curatorial da Bienal VentoSul. Buscou também selecionar trabalhos
que fossem significativos de algumas questões e tendências que de modo
recorrente, apareceram no conjunto das inscrições. Seu resultado final, ainda
que plural e incompleto, certamente permitirá ao público um contato instigante
com os produtos poéticos mais recentes da tecnologia eletrônica.
Fernando Cocchiarale
Dias 08/10 e 10/10 - Exibição dos
vídeos selecionados Duração 1h14min
Passagem (9’,
2008) - Arthur Tuoto - Brasil
O filme é uma radiografia audiovisual
sobre o lugar que separa os estados do Piauí e Maranhão. Divididos apenas pelo
rio Parnaíba, os dois estados configuram uma atmosfera particular nessa espécie
de limbo em que se define esse ambiente de passagem. Um território que não faz
parte nem de um estado e nem de outro é parte do que? Caminhos e descaminhos
formam um corpo sensorial de imersão e fragilidade através de diferentes ações
dentro desse ambiente específico.
Água do Peji (3’50”, 2008) -
Roderick Peter Steel - Brasil
Água do Peji celebra a comunhão, através
de um corpo de água sagrado. Bebe-se ali a manifestação do corpo água, em sua
totalidade. A Água do Peji está energizada, repleta de força vital, de axé, e da
qual já beberam, simbolicamente, os espíritos da natureza, os caboclos, os
voduns, os reis da encantaria dentro de seus quartos, ou ‘pejis’. Neste caso,
trata-se do ritual final de um toque de Tambor-de-Mina, religião de matriz
africana do Norte do Brasil.
Q`aiturastro - Rastro de linhas (5’,
2007) - aruma - Sandra De Berduccy - Bolívia
Q´aiturastro, rastro de linhas,
apresenta quatro movimentos que relacionam a elaboração tradicional de fio de lã
com fibras de animais, chamado em quíchua q’aitu, e os “períodos” da migração.
Cada um destes movimentos evoca elementos da cultura boliviana como a pushka ou
fuso e os enfeites para o cabelo chamados tullmas, cada um destes considerados
como elementos identitários que se vão deixando de lado no processo de migração
do campo para as cidades ou para outros países.
Tempestade (1’,
2008) - Bárbara de Azevedo - Brasil
O fluxo do ar se precipita em ventos,
anunciando a iminência de uma tempestade.
DRUM (7’44”, 2009) -
Javier Fresneda - Espanha
DRUM é uma intervenção site-specific num lago natural em Parrillas
(Toledo). Um tambor acústico foi instalado no meio do lago. O músico Alberto de
la Hoz fez uma apresentação solo, durante a qual improvisou por duas horas. DRUM
propõe a intervenção a partir de um acontecimento comum, tomando o local através
da realização de uma performance absurda e desajeitada: um acontecimento
condicionado pelo ambiente.
Pedra Mole em Água Dura (2’10”, 2009)
- Paula Barreto - Brasil
Predominantemente na cor azul celestial,
este vídeo registra em plano fixo a movimentação ondulante do reflexo de um
homem sobre superfície líquida. Escuta-se sobretudo o sopro sibilante e contínuo
de um Vento do mar: o que sopra no sentido do mar para o litoral. Essa sombra é
quase como uma lembrança da existência daquele ser. Sua eminente imaterialidade
nos faz aludir, talvez, a um fantasma que consegue jogar um objeto
sólido.
Territórioland (9’, 2007) - Laerte Ramos - Brasil
Territórioland: Paisagem-ficção. Trata-se de uma releitura de fundos de
desenhos animados porém sem interferências de personagens. A paisagem pura, o
último plano/background surge sozinho para ressaltar toda a atmosfera de uma
paisagem-ficção.
B_g B_ng (5’, 2006) - Fernando Velázquez -
Uruguai
B_g B_ng propõe uma cosmogonia cujo ponto singular é a capacidade do ser humano de criar e habitar universos. O mundo existe no momento que tem alguém para interpretá-lo. Neste sentido o filme é um comentário sobre a contemporaneidade. Se por uma lado, o espaço asséptico e vazio onde um misterioso personagem monta um castelo de plástico e ar (com toda a carga simbólica que estes elementos carregam) se apresenta como pessimista, a possibilidade de regeneração e recriação deste cenário nos enche de esperança.
Como pode alguém
impedir uma gota d’água de jamais secar? (40”, 2008) - Bernardo Damasceno -
Brasil
Este vídeo realizado em maio de 2008 na Pont du Change, sobre o rio Sena
na cidade de Paris, tenta descrever uma determinada situação de passagem entre a
preservação e a circulação de um trabalho de arte, usando como materiais
partículas de água salgada derramadas em águas doces e seu simultâneo registro
em vídeo. Esta situação é um tipo de metáfora que engloba as cidades, as
amizades, valores diversos, tempos presentes, o meio-ambiente, a atmosfera
terrestre, chegando mesmo a mergulhar na própria história da arte e sua
linguagem específica.
Westcoast (7’, 2009) - Ulu Braun -
Alemanha
Westcoast é um vídeo-panorama que consiste de cenas entretecidas,
montadas num litoral – algum lugar entre Rotterdam e Sydney. Começa com uma sopa
borbulhante e, então, a visão passa pela costa ao estilo do ecletismo financeiro
internacional de ultimamente, com pontos místicos como um hipopótamo gigante
sendo alimentado por cenouras e botes de borracha girando febrilmente. Após a
cena espiritual pesada, lembrando as atmosferas de Hieronymus Bosch atualizadas,
o panorama termina numa caverna com uma sucata de banheira onde uma mulher
branca se olha melancolicamente.
Cheias e Vazantes (2´, 2009) -
Felipe Pereira Barros - Brasil
Cheias e Vazantes é um vídeo feito
a partir do resgate de antigos filmes caseiros e 8mm, pertencentes a famílias de
imigrantes alemães e italianos, vindos a São Paulo nos anos 60, motivados pela
busca de melhores oportunidades em outras terras. Esse foi o começo de uma nova
dimensão, onde as fronteiras se expandiram e as distâncias diminuem. A presença
da água é fundamental nesse vídeo, ligando os continentes. Mundos se tocam e se
mesclam através dos mares.
Arrasto (1’20”, 2008) - Jimson Vilela
- Brasil
Através
do movimento de arrastar uma de minhas mãos sobre uma superfície branca e sobre
a minha outra mão, na qual a palavra mar está escrita, realizo uma inversão no
que tange a imagem comum sobre o mar (a maré que bate na areia), o mar está fixo
o acontecimento é que se dirige até este. O sujeito do acontecimento, o rato
(rato-de-praia ou malandro) realiza junto ao mar (a idéia de mar pressupõe a
idéia de praia) a ação: o arrasto – o arrastão.
STREET WALKS.PORT
SERIES – HAKODATE (14’, 2007) - Paul Gazzola - Austrália
A Série “STREET WALKS”
(“Caminhadas pela Rua”) é um projeto site-specific* em andamento, que
re-interpreta a atividade humana básica do caminhar como um evento filmado,
tocando na junção entre o real e o potencial de representação ficcional, numa
re-descrição através da lente da câmera. Propõe-se olhar as ruas da cidade como
espaços teatralizados, a ação quotidiana como forma poderosa de narrativa
representada, e na arquitetura local uma cenografia contínua do dia-a-dia da
população.
Le Brasseur de Vent (2’, 2005) - Isabel Cunha de
Almeida - Brasil
Retrata o homem comum que chegando ao lar lê uma revista especializada.
O trompe l´oeil ao fundo de sua sala retrata o que não existe mais: a água que
convida à travessia. Mas, esta é agora apenas representação; o novo território
no horizonte espera; o barco não tem vela e o pássaro é de brinquedo. Nestas
condições navegar não é possível. Impossibilitado de se deslocar, só lhe resta
sonhar. Este é o vetor que lhe permite atravessar as grandes águas, como um
herói solitário do Vendée Globe. Munido unicamente de seu pensamento, torna-se
um marinheiro que desafia as forças do vento e manobra as velas. Mas, o vento é
forte...
Ordnung (3’55”) – Yukihiro Taguchi – Japão /
Alemanha
O vídeo
é o registro da instalação performática Ordnung (Ordem) realizada pelo
artista Yukihiro Taguchi na Galerie der Künste (GdK), em
Berlim.
Dias 09/10 e 11/10 - Exibição da mostra In This
Together Duração 1h24min
In This Together
O mundo
árabe e sua gente são diversificados em tradição, religião, lugar e história. As
crenças, opiniões e esperanças deste povo não podem ser contidas numa única
declaração. In This Together é uma compilação de vídeo-arte feita por
profissionais reconhecidos e emergentes que exploram o ‘Arabismo’ através de
amplos espectros sociais, políticos e religiosos. A mostra também oferece aos
espectadores a oportunidade de refletirem sobre as estórias provenientes das
zonas de conflito, desafiando suas representações através da apresentação de
vários pontos de vista. Estas oportunidades para a conversa e o debate não podem
existir até que se aborde o processo de negociação com e para uma abertura de
opiniões. In This Together apresenta uma variedade de estórias que emergem de
várias culturas árabes para audiências australianas, local e globalmente. Além
disso, dirige-se às (más) representações da cultura árabe, expondo o pensamento
dominante na Austrália a representações alternativas da cultura árabe, através
do comentário e da auto-representação. In This Together levou três anos para ser
feito, e segue 2 outras mostras com tema similar: Some Thing Screening (2006) e
Tone (2007) exibidos no Museu Regional de Liverpool em parceria com Casula
Powerhouse, Informação e Intercâmbio Cultural (ICE) e no Festival do Cine Árabe
de Sydney (SAFF) de 2007. In This Together consiste em 7 vídeos de um canal
feitos por Akram Zaatari (Líbano), Nadyat El Gawley e Fatima Mawas (Austrália),
Eliane Raheb (Líbano) Anna Bazzi-Backhouse e Murmur Sayed Ahmed (Austrália),
Farah Ahmed Fayed (Líbano), Jacko Restikian (Canadá), e o Centro Árabe de
Recursos para as Artes Populares Al-Jana (Líbano). As obras nesta exposição
transitam por uma larga faixa de gêneros e técnicas – no experimental, no
dramático e frequentemente controverso, sugerindo que não há um método único de
comunicação ou resolução de conflito mas, na verdade, uma diversidade de
opiniões e perspectivas sobre o mundo árabe e a Diáspora.
Khaled
Sabsabi Curador da exibição de In This Together.
Her + Him Van
Leo (2001, 31´41) - Akram Zaatari - Líbano

Um retrato nu da avó vira pretexto para visitar
o fotógrafo Armênio/Egípcio Van Leo. É um trabalho que justapõe fotografia e
vídeo, preto e branco e colorido para comentar as transformações que ocorreram
no Egito ao longo dos seus 50 anos de história recente.
From
Beirut to Those Who Want to Listen (2006, 5´31) - Eliane Raheb -
Líbano

“O meu trabalho
tem sido uma exploração do ego e a sua relação com o ambiente sociopolítico que
o condiciona. Eu venho de uma região onde a vida dos indivíduos está fortemente
ligada aos eventos políticos. Realmente acredito que essa dinâmica entre o
pessoal, o grupo e o meio político pode servir como fonte de inspiração para
muitos filmes e obras de arte.”
It Doesn´t Belong to You (2004,
13´42) - Fayed - Líbano

Este vídeo trata das complexidades da posse,
mais precisamente ao ser físico (que não pertence a você).
Details of Violence (2007, 1´48) - Fatima Mawas -
Austrália

Nós quisemos
destacar os detalhes da violência racial nos confrontos de Cronulla: tanto os
flashes rápidos que apareceram na mídia e que ficaram marcados na memória do
público, como também os acontecimentos que não puderam ser vistos pelos
espectadores. Exploramos o ato de correr e as conversas do público no local. O
que essas conversas parecem quando falam de provincianismo? E, a que se
assemelham quando observadas de ângulos diferentes por visões rivais e
satirizadas pelas nuances culturais? Ainda há muito que precisa ser dito sobre o
tom dos confrontos, o temperamento da época e a fúria visceral e provinciana que
os comunica. Este é o nosso estudo do que aconteceu naquele dia.
I Shaved My Beard for Good (2006, 5´39) - Jacko Restikian -
Canadá

O narrador conta
sua história sem revelar seu rosto. Ele intervém em uma imagem social que parece
estar em um jornal no metro, e inicia uma análise demonstrativa e conflitante
com esta imagem. Como encarar o conflito entre a imagem pessoal de um ser humano
e aquela imagem do coletivo histórico do indivíduo é a questão. Para fazer parte
do todo, uma forma de existência social transforma a imagem do indivíduo.
Enfrentar essa questão de pertencer (me refiro àquela que o homem não escolhe)
envolve, inevitavelmente, um conflito entre o indivíduo e sua imagem social. A
imagem do Bem e do Mal, do bom e do mau (como, por exemplo,
terrorista/antiterrorista) foi disseminada durante a Guerra Fria, antes de 11 de
Setembro. Essa dualidade, que facilmente se propagou na consciência social, foi
projetada e se concretizou em alvos bem definidos: nos povos do sul, na
democracia, no fundamentalismo, no terrorismo, etc. Claro que todos esses
conceitos, difundidos de uma maneira nebulosa e não de uma maneira simplista, se
desviaram de suas descrições iniciais. O aparecimento das reações da consciência
social fragmenta o conceito do bem e do mal para gerar outros conceitos.
Essa articulação da figura traça um caminho lógico e inevitável:
Fundamentalismo = Islã e/ou o mundo árabe, etc.
Childhood
in the Midst of Mines (2002, 18´25) - AlJana Arab Resource Center for Popular
Arts - Líbano

Al-Jana
Arab Resource Center for popular Arts, Líbano, Duração: 18min 25seg “Nós não
podemos brincar por causa das minas e nossas famílias não podem cultivar as
terras”. Doha, 12 anos, do sul do Líbano.
New Middle East (2007,
6´45) - Anna Bazzi Backhouse e Murmur Sayed Ahmed - Austrália

Trata-se de um vídeo experimental com
cenas de devastação do sul do Líbano no 33° dia da guerra com Israel (julho
2006), coberto com uma ode pessoal ao Líbano, dada por um imigrante jovem recém
chegado à Austrália, Ibrahim Kassem. Kassem representa uma nova geração de
libaneses que cresceu com a guerra e que vem sendo sistematicamente jogada fora
de seu país e/ou preparada para lutar e protestar entre muitos, em mais uma era
de agitação social que recentemente se intensificou e polarizou o país.
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